Wednesday, October 14, 2009

Fim

Sunday, October 11, 2009

A graça

-Pense nos amores, ao invés de ficar pensando nos desamores. Ele sempre dizia esta frase para Beth. Jaio a recebeu da forma mais lisonja possível, abrindo o portão daquele casarão imenso. Trazia nas mãos alguns incensos, o baile da fumaça a esvoaçava o ar, ele usava uma túnica, mas não foi isso que impressionou os olhos de Beth.

Ele sentou-se daquela forma que os iogues o fazem, e começou a quase sussurrar um monólogo extenso. Beth ouvia cada frase, cada palavra com atenção, às vezes se assustava com o olhar dele, que penetrava a córnea dela. Mas, num átimo ela se recompunha e por oras balançava a cabeça em sinal de assertiva.

O treinamento começava cedo, bem no começo do dia. Os galos cantavam seus mantras antes de todos. As posições se inverteram, agora era ele que mostrava algo diferente no olhar. As palavras, agora, ditas nas tardes que se esticavam até o anoitecer, eram diferentes.

Fizeram a sinastria, conforme o costume local e decidiram partir. A nova casa tinha vista para as montanhas. Num belo dia de sábado, ele decidiu ir até a montanha, foi-se. Desde este dia, Beth guarda apenas a frase que ele deixou.


Felipe Bizarria

Friday, October 09, 2009

Notas de uma traição

O som alto da guitarra a se contorcer já se fazia ouvir por todo quarteirão, vez ou outra o piano dava os acordes de sua presença. No estúdio, um vaso de margaridas já murchas enfeitava a estante de livros e partituras. O cinzeiro cheio ao lado dos pés calçados estava sempre a fumegar. Rian dedilhava enquanto a humanidade caminhava.

Uma nota mais alta se podia ouvir, caso alguém chegasse perto de seu peito e escutasse o coração, era ali que estava impresso o nome de Maria e este ressoava quando os dois se despiam lentamente no edredom que fazia a cama no chão.

A fama fez com que o som que se podia ouvir por todo quarteirão, reverberasse por todos os aparelhos de rádio. Rian tinha o hábito dos que ocupam o lugar dos gênios, o de nunca parar de aprender. Agora, tinha um estúdio mais garboso, Maria tratou de arrumar tudo. Estudou as cores apropriadas. E comprou um quadro de extensa altura e largura. O pé direito era tão alto quanto alguns acordes.

Autógrafos viraram bilhetes, que viraram encontros, que viraram noites em motéis, que viraram paixões, que viraram romances, que viraram cabeças, que viraram Rian e Maria pelos avessos. E, de costas, Rian estava a trabalhar no estúdio, trabalhava em um solo.

Felipe Bizarria

Thursday, October 08, 2009

A Fazenda das Amendoeiras

Os dias se passavam amiúde na Fazenda das Amendoeiras: a textura do mato era o que ela mais gostava de sentir, Marcélia se deitava naquele pedaço verde de terra e punha-se a sonhar com todas as nuvens que sob o céu pairavam. Antes de se levantar para tomar um chá, comer um biscoito de lavanda ou para apenas lavar as mãos, ela arrancava um maço de grama e salpicava sobre o caminho até a casa grande.

As escadas vermelhas serviam para as tardes enfadonhas, ela se quedava ali feito estátua, pensava em Artur, imaginava-o chegando e por coincidência - ou o nome que os senhores e as senhoras queiram colocar – ele chegava. E nessas horas, mesmo se a chuva estivesse presente um raio de sol iluminava a escada vermelha. Dias de paz.

A sala era feita de madeira, lugar onde o fogo não deve estar. Os dois se sentavam no sofá macio adornado com um tecido floral, ficavam horas por lá, mais ou menos até o sol se pôr e então se recompunham. Era hora de Artur se preparar para chegar ao hospital às dezenove horas.

Os pés de Marcélia tocaram os tapetes que ficavam na porta do quarto, depois de um demorado banho ela volta ao quarto, senta-se ao lado direito da cama e rememora todas as horas do dia que passou, massageia os pés, lê livros de culinária, faz anotações com caneta por cima dos ingredientes e levanta-se, falta a presença de Artur. E assim, seus pares pés adentram o gelado chão da cozinha.

Felipe Bizarria

Monday, September 28, 2009

Claridade

Dois sofás, olhos abertos, olhos verdes, as mesas fazem as barras. Carla havia chegado há poucos dias, era tempo de muito trabalho, mas já era hora de descansar um pouco, voltar à cidade natal, rever os pais, amigos, os vizinhos que nunca se mudam. Já que o corpo fala, naquela noite ele tagarelou. Ela dá um trago profundo no cigarro e põe-se a ouvir o que as pessoas estão a dizer. São dois pares de olhos. Um que a remete a um lugar quase selvagem, outro que a leva aonde pensa querer chegar. Finda-se a noite. Algumas estrelas pipocam no céu, a noite urge para a manhã.


Felipe Bizarria

Friday, September 18, 2009

Perfume

Notas de cabeça: ela devorava livros. Era mulher valente, dessas que a gente, em primeiro contato, até se assusta. Rodeada de livros na biblioteca da casa, ela fazia anotações nos livros enquanto os mosquitos pousavam em seu rosto. O clima do mar mediterrâneo fazia com que ela se despisse de toda e qualquer roupa naquelas horas de fantasia.

Notas de coração: o marido havia partido, a vida se tornara mera distração. Não tinha mais com quem compartilhar sequer um a. Fez promessa na capela rente ao mar, jogou uma dúzia de flores no mar, pensou em fazer o caminho de Santiago de Compostela, jogou moedas de costas para a fonte, foi a festas e quedou-se ali mesmo na biblioteca, no final das contas.

Notas de fundo: a casa era por demais espaçosa, tinha 20 cômodos ao todo. Mas ela passava a maior parte de seu tempo perdido na biblioteca. Era dia claro, de maio. Ela folheava a última página de um romance, já exaurida pela história sentiu os olhos claros como o leite, um espasmo, um minuto, um secar de ar, um.


Felipe Bizarria

Saturday, September 12, 2009

A corte

Era dia de embate. Helena foi correndo avisar ao pai que não se esquecesse de colocar o terno cinza naquele dia. Em dia de julgamento é melhor se preparar garbosamente. As horas não passavam, como de costume quando as esperamos por demais. Ele fora acusado por homicídio, dizem por aí que foi briga passional, vozes do povo. Mas sua mulher preparou um belo almoço, comida árabe, farto pão. Ele se demorou para comer, divagava com um pedaço de pão na mão. Helena lia o conteúdo burocrático dos papéis e ali se concentrava.
Chegada a hora do cara-a-cara, ele se preparou, fechou os olhos por um instante, respirou lenta e profundamente e foi ao encontro do seu maior inimigo. A morte estava feita, não havia como apagar mancha tão negra, ele disso sabia. Mas mesmo assim utilizou toda a sua técnica da retórica para persuadir o juiz. O disse-não-disse perdurou por cerca de três horas.
Helena olhava impaciente o ponteiro do relógio, do lado de fora do tribunal. A mãe de Helena já sabia como seria o desfecho, mulher tem mais benevolência do que homem, viu a visão. Ele saiu de mãos algemadas e pediu a ela que guardasse a aliança dele. Helena chorava enquanto a sirene do carro da polícia urgia.

Felipe Bizarria
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